Tags escondidas em objetos para rastrear mulheres em São Paulo acendem alerta sobre stalking e violência digital

 


Um conjunto de relatos recentes acendeu um alerta entre autoridades de segurança pública e especialistas em violência de gênero em São Paulo. Homens têm utilizado pequenos dispositivos de rastreamento, conhecidos popularmente como “tags”, para monitorar a rotina de mulheres sem consentimento. Os aparelhos, de baixo custo e fácil acesso, vêm sendo escondidos em carros, bolsas, mochilas e até em pertences de crianças, criando um cenário de vigilância constante e invisível.

A prática, revelada por reportagem da Folha de S.Paulo, expõe uma nova camada da violência de gênero, na qual a tecnologia passa a ser usada como ferramenta de controle, perseguição e intimidação. Após a divulgação do caso, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo confirmou que o uso clandestino desses dispositivos pode se enquadrar no crime de perseguição, conhecido como stalking, previsto no Código Penal brasileiro.

O fenômeno não é isolado. Investigadores e especialistas relatam que o uso indevido de rastreadores portáteis tem aparecido com maior frequência em ocorrências envolvendo violência doméstica e relações afetivas encerradas. Em muitos casos, as vítimas só descobrem que estão sendo monitoradas após mudanças de comportamento do agressor ou por acaso, quando encontram o dispositivo escondido em seus pertences.

O que são as “tags” e como funcionam

As chamadas tags são dispositivos de rastreamento de pequeno porte, muitas vezes com tamanho semelhante ao de uma moeda. Elas foram criadas originalmente para facilitar a localização de objetos pessoais, como chaves, bolsas ou carteiras, por meio de conexão com smartphones e redes de localização.

No entanto, o mesmo funcionamento que facilita o uso cotidiano também permite o abuso. Quando colocadas de forma oculta em objetos pessoais ou veículos, essas tags podem transmitir a localização da vítima em tempo real para o agressor, sem qualquer sinal perceptível.

O problema se agrava pelo baixo custo. Em muitos casos, esses dispositivos são vendidos por menos de R$ 100, o que amplia o acesso e facilita o uso indevido. Além disso, a tecnologia não exige conhecimento técnico avançado, o que torna o rastreamento clandestino uma prática simples de ser executada.

Esse tipo de vigilância transforma a rotina da vítima em um mapa constante de deslocamentos, permitindo que o agressor saiba onde ela está, com quem está e quais são seus hábitos diários. Especialistas alertam que esse nível de invasão de privacidade pode gerar medo, ansiedade, isolamento social e restrição da liberdade.

Quando a tecnologia vira instrumento de perseguição

No Brasil, o uso de dispositivos de rastreamento sem consentimento pode se enquadrar no artigo 147-A do Código Penal, que trata do crime de perseguição. O stalking foi incluído na legislação em 2021, em resposta ao aumento de casos de perseguição contínua, especialmente contra mulheres.

O crime ocorre quando alguém persegue outra pessoa de forma reiterada, ameaçando sua integridade física ou psicológica, restringindo sua liberdade ou invadindo sua privacidade. A pena prevista é de seis meses a dois anos de prisão, além de multa. Em determinadas circunstâncias, como quando a vítima é mulher ou quando há descumprimento de medidas protetivas, a pena pode ser aumentada.

A classificação legal é importante porque reconhece que perseguição não se limita a presença física. O monitoramento digital, o rastreamento oculto e o controle à distância também podem configurar violência.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, o uso desses dispositivos em contextos de vigilância clandestina pode ser enquadrado diretamente como stalking, reforçando a necessidade de investigação caso a caso.

O que dizem as autoridades de São Paulo

Após a repercussão do caso, a Secretaria informou que acompanha de forma contínua os registros de perseguição e crimes relacionados à violência contra a mulher. A gestão estadual afirma manter políticas integradas de proteção, com foco em prevenção, acolhimento e ampliação da rede de atendimento.

Entre as iniciativas destacadas estão campanhas de incentivo à denúncia e o fortalecimento de estruturas especializadas para atendimento de vítimas. A estratégia, segundo a pasta, busca estimular mulheres a registrarem ocorrências e romperem ciclos de violência, que muitas vezes se prolongam por medo, dependência emocional ou econômica.

A secretaria também aponta a expansão da rede de atendimento especializado no estado. Atualmente, São Paulo conta com 144 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) e 220 salas DDM distribuídas em diferentes regiões. Essas unidades são responsáveis por receber denúncias, investigar crimes e oferecer suporte às vítimas.

Outro ponto destacado é a Cabine Lilás, estrutura instalada no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom). O serviço funciona como canal de atendimento especializado para mulheres em situação de violência, oferecendo orientação e apoio imediato. Segundo dados oficiais, a Cabine Lilás já realizou dezenas de milhares de atendimentos desde sua criação, incluindo chamadas de emergência e intervenções policiais.

Tecnologia também usada para proteção

Embora a discussão atual envolva o uso abusivo da tecnologia, o governo estadual também tem investido em ferramentas digitais voltadas à proteção das mulheres. Um dos principais exemplos é o aplicativo SP Mulher Segura, que reúne recursos de geolocalização e mecanismos de emergência.

A plataforma permite que usuárias acionem rapidamente o botão do pânico em situações de risco, além de oferecer integração com sistemas de monitoramento de agressores que utilizam tornozeleira eletrônica. De acordo com a secretaria, o aplicativo já reúne dezenas de milhares de usuárias ativas e registra milhares de acionamentos de emergência.

O sistema de monitoramento eletrônico de agressores também vem sendo ampliado. Atualmente, centenas de pessoas são acompanhadas por tornozeleira eletrônica, especialmente em casos de violência doméstica. O objetivo é garantir que medidas protetivas sejam cumpridas e reduzir o risco de reincidência.

Segundo dados oficiais, desde a implantação desse tipo de monitoramento, centenas de pessoas já foram presas por descumprirem ordens judiciais de afastamento, o que reforça a importância do acompanhamento contínuo.

Um problema invisível com impactos profundos

A ausência de estatísticas específicas sobre o uso de tags para rastreamento clandestino dificulta a mensuração exata do problema. Na prática, esses casos costumam ser registrados dentro de categorias mais amplas, como perseguição ou violência psicológica.

Ainda assim, profissionais que atuam na área relatam aumento na identificação de situações em que vítimas descobrem estar sendo monitoradas sem consentimento. Em muitos desses casos, o rastreamento é apenas uma das formas de controle exercidas pelo agressor, que pode incluir também ameaças, vigilância presencial e invasão de dispositivos eletrônicos.

O impacto psicológico desse tipo de violência é significativo. A sensação de estar constantemente sendo observado pode levar a mudanças de comportamento, restrição de deslocamentos, abandono de rotinas e isolamento social. Em casos mais graves, há relatos de crises de ansiedade e medo constante.

Especialistas apontam que a violência tecnológica representa uma evolução de padrões já conhecidos de controle em relações abusivas, agora potencializados pela facilidade de acesso a ferramentas digitais.

Stalking e violência de gênero: uma conexão direta

O stalking, embora muitas vezes associado a perseguições físicas, tem forte relação com violência de gênero. Mulheres são as principais vítimas desse tipo de crime, especialmente em contextos de término de relacionamento ou separação.

A inclusão do stalking no Código Penal brasileiro em 2021 foi um marco importante, pois reconheceu formalmente que a perseguição repetitiva, inclusive digital, é uma forma de violência.

O enquadramento legal também permite que autoridades atuem de forma mais rápida em situações de risco, além de ampliar a conscientização sobre comportamentos que antes eram subestimados ou normalizados.

A legislação busca proteger a liberdade individual e o direito à privacidade, elementos fundamentais para a segurança das vítimas.

Desafios para investigação e prevenção

Apesar do avanço legal, ainda existem desafios importantes para a investigação desses casos. A identificação de dispositivos de rastreamento ocultos exige atenção, conhecimento técnico e, muitas vezes, investigação minuciosa.

Além disso, o caráter invisível da tecnologia dificulta a percepção imediata por parte das vítimas. Muitas pessoas só descobrem o rastreamento quando percebem comportamentos estranhos por parte do agressor ou quando recebem orientações de especialistas.

Outro desafio é a facilidade de acesso a esses dispositivos, que são vendidos livremente no mercado e podem ser configurados em poucos minutos. Isso amplia o risco de uso indevido e dificulta o controle preventivo.

Rede de proteção e incentivo à denúncia

As autoridades reforçam a importância da denúncia como ferramenta central no enfrentamento à violência de gênero. Em muitos casos, o registro formal da ocorrência é o primeiro passo para interromper ciclos de perseguição.

A estrutura de atendimento em São Paulo inclui delegacias especializadas, canais de emergência e serviços integrados de apoio. A ideia é oferecer múltiplas portas de entrada para que a vítima consiga buscar ajuda de forma segura.

Campanhas públicas também têm sido utilizadas para orientar a população sobre sinais de violência psicológica, perseguição e abuso digital, com o objetivo de ampliar a conscientização.

Conclusão: vigilância invisível e a urgência de respostas estruturais

O uso de tags de rastreamento escondidas em objetos pessoais revela como a tecnologia pode ser facilmente apropriada para fins de controle e violência. O caso expõe não apenas um problema criminal, mas também um desafio social e institucional mais amplo.

Ao transformar dispositivos criados para facilitar o cotidiano em ferramentas de perseguição, o cenário reforça a necessidade de vigilância sobre o uso de tecnologias acessíveis e de fortalecimento das políticas de proteção às vítimas.

A combinação entre legislação mais recente, estruturas de atendimento especializado e ferramentas digitais de proteção mostra avanços importantes. No entanto, a realidade dos casos relatados indica que ainda há um caminho significativo para garantir que a tecnologia não seja usada como instrumento de medo e coerção.

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