94 anos depois, voto feminino ainda é alvo de ataques e discriminação

 


Maioria do eleitorado brasileiro, mulheres seguem enfrentando tentativas de deslegitimação de sua participação política e permanecem sub-representadas nos espaços de poder.

Noventa e quatro anos após a conquista do voto feminino no Brasil, a participação das mulheres na vida política continua sendo alvo de ataques e tentativas de deslegitimação.

Em declarações recentes nas redes sociais, o influenciador digital Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro e residente nos Estados Unidos, afirmou que mulheres votam “estatisticamente, muito mal”, especialmente as solteiras, e sugeriu que mulheres casadas tendem a acompanhar o voto dos maridos.

A declaração reacendeu o debate sobre a persistência da discriminação contra o eleitorado feminino e sobre as tentativas de questionar a autonomia política das mulheres.

O direito ao voto foi reconhecido às brasileiras em 1932, por meio do Código Eleitoral, e consolidado na Constituição de 1934. Desde então, a presença feminina na democracia brasileira cresceu de forma significativa. Atualmente, as mulheres representam cerca de 53% do eleitorado, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).


Apesar disso, a representação feminina nos espaços de poder permanece muito abaixo da participação das mulheres no eleitorado. Na Câmara dos Deputados, são 91 mulheres entre 513 parlamentares. No Senado, 16 das 81 cadeiras são ocupadas por senadoras.

Esse cenário coloca o Brasil entre os países com menor participação feminina nos parlamentos. A desigualdade também aparece na própria estrutura das instituições. Até 2015, por exemplo, as senadoras precisavam deixar o plenário do Senado para utilizar o banheiro feminino localizado em um restaurante próximo. Durante mais de cinco décadas, o plenário contou apenas com banheiros masculinos.

Ataques ao voto feminino atingem a democracia

A declaração sobre a capacidade das mulheres de escolher seus representantes provocou reação institucional da deputada federal Jack Rocha (PT-ES), líder da Bancada Feminina da Câmara dos Deputados.

Segundo a parlamentar, questionar a capacidade das mulheres de votar significa também atacar uma conquista construída ao longo de décadas de luta democrática.

A discussão ocorre em um contexto no qual o Brasil vem adotando medidas para ampliar a participação feminina na política e combater a violência de gênero. Entre elas estão mecanismos de financiamento para candidaturas de mulheres e pessoas negras e a Lei nº 14.192/2021, que estabelece normas para prevenir e combater a violência política contra as mulheres. Também tramita no Congresso o projeto que propõe tipificar a misoginia como crime.

A trajetória das mulheres na política brasileira mostra que o direito ao voto foi apenas uma etapa de uma luta mais ampla por participação, representação e autonomia.

Quase um século depois da conquista do sufrágio feminino, as mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros, mas ainda enfrentam obstáculos para ocupar os espaços de decisão. A disputa pelo direito de participar plenamente da democracia, portanto, permanece atual.


Fonte: https://pt.org.br/94-anos-depois-voto-feminino-ainda-sofre-perseguicao-e-vira-alvo-da-extrema-direita/

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