A Cobertura Policial Que Apaga Mulheres: Como Programas de Televisão Contribuem para a Subnotificação do Feminicídio no Brasil

 


Em uma tarde de junho, enquanto milhões de brasileiros acompanhavam o programa "Primeiro Impacto", transmitido pelo SBT, mais um caso brutal de violência contra as mulheres era apresentado ao público. No entanto, o que deveria ser denunciado como feminicídio foi classificado pelos apresentadores simplesmente como homicídio qualificado. Essa decisão editorial não é apenas um erro técnico, mas representa um padrão preocupante na cobertura midiática que contribui diretamente para a subnotificação sistemática dos casos de feminicídio no país.
O episódio em questão ocorreu no estado do Espírito Santo e envolveu o assassinato de Marcele, uma jovem de 29 anos cuja vida foi brutalmente interrompida por alguém próximo a ela. Durante a transmissão, o apresentador Marcos Paulo Ribeiro de Moraes, conhecido popularmente como Marcão do Povo, junto com um especialista convidado, justificou a classificação do crime como homicídio comum argumentando que não havia relacionamento afetivo entre vítima e agressor. Ambos afirmaram que se tratava apenas de amigos, descartando assim a possibilidade de enquadrar o caso como feminicídio.
Essa explicação, amplamente difundida durante o programa, está fundamentalmente equivocada e revela uma compreensão limitada da legislação brasileira sobre violência de gênero. Segundo especialistas que estudam a cobertura midiática da violência contra as mulheres, mesmo quando não existe vínculo conjugal ou amoroso entre as partes envolvidas, o crime pode e deve ser classificado como feminicídio não íntimo. Esta categoria legal foi estabelecida pela Lei nº 13.104/2005, que define como feminicídio o homicídio cometido contra mulher por razões da condição de sexo feminino, incluindo situações em que há menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
A pesquisadora Lua Lacerda, doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco e especialista na análise da cobertura jornalística sobre violência de gênero, aponta que casos como o de Marcele exemplificam claramente as características do feminicídio não íntimo. A brutalidade do crime, evidenciada pelo espancamento que teve o rosto da vítima como alvo central, demonstra precisamente o tipo de desfiguração dos signos de feminilidade que caracteriza este tipo de violência. O ataque direcionado especificamente aos traços femininos da vítima configura o menosprezo à sua condição de mulher, elemento essencial para o enquadramento legal como feminicídio.
O problema vai além da mera classificação jurídica incorreta. A forma como o programa abordou o caso revela padrões problemáticos na cobertura jornalística da violência contra mulheres. Ao reproduzir acriticamente a narrativa do assassino, que alegou ter cometido o crime para "expulsar o demônio que estava no corpo dela", os apresentadores falharam em contextualizar adequadamente o fato. Não houve questionamento sobre essa justificativa absurda, nem análise crítica sobre suas implicações sociais e culturais.
Outro aspecto preocupante foi a ênfase dada à beleza física da vítima durante toda a reportagem. Marcão do Povo destacou repetidamente a aparência de Marcele, transformando-a em objeto de contemplação mesmo após sua morte violenta. Essa abordagem sensualiza a violência e desvia o foco das questões estruturais que permitem que crimes como esse aconteçam. Simultaneamente, ignorou-se completamente a responsabilidade social dos vizinhos que ouviram os gritos da jovem mas só agiram quando já era tarde demais, revelando uma cultura de indiferença diante da violência doméstica e de gênero.
A ausência de contextualização histórica e social é talvez o aspecto mais grave dessa cobertura. Os apresentadores não mencionaram que se trata de mais um caso de violência sistêmica contra as mulheres no Brasil, nem cobraram ações concretas do governo do Espírito Santo para prevenir futuros crimes. Em 2025, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.580 mulheres foram vítimas de feminicídio em todo o território nacional. Cada número representa uma vida perdida, uma família destruída e uma falha coletiva da sociedade brasileira em proteger suas cidadãs.
Esse tipo de enquadramento midiático favorece diretamente a subnotificação dos casos de feminicídio, especialmente aqueles que ocorrem fora do contexto doméstico tradicional. Observa-se no jornalismo brasileiro uma tendência de reconhecer como feminicídio apenas os casos envolvendo parceiros ou ex-parceiros das vítimas, negligenciando outras formas de violência de gênero. Casos como o de Marcele, bem como transfeminicídios, raramente recebem o enquadramento adequado, contribuindo para estatísticas oficiais incompletas e políticas públicas ineficazes.
A autonomia jornalística, que deveria ser exercida para investigar profundamente os fatos e cobrar respostas das instituições, tem sido usada justamente para minimizar a gravidade desses crimes. Ao optar pelo jornalismo declaratório, que simplesmente reproduz versões oficiais sem questionamento crítico, programas como o "Primeiro Impacto" perpetuam narrativas que naturalizam a violência contra as mulheres.
É importante destacar que Marcão do Povo já possui histórico problemático relacionado a discursos discriminatórios. Em 2023, foi condenado por injúria racial, mas continua apresentando seu programa normalmente. Esse contexto levanta questões importantes sobre a responsabilidade das emissoras em selecionar profissionais que demonstrem respeito aos direitos humanos e sensibilidade às questões de gênero e raça.
A cobertura inadequada da violência contra as mulheres não é apenas um problema ético-jornalístico, mas tem consequências práticas graves. Quando a mídia falha em nomear corretamente esses crimes, contribui para que a sociedade não compreenda sua verdadeira natureza e magnitude. Isso dificulta a mobilização social necessária para exigir políticas públicas efetivas, investimentos em prevenção e apoio às vítimas, além de fortalecer a impunidade dos agressores.
Para reverter esse cenário, é fundamental que os profissionais de comunicação recebam formação adequada sobre questões de gênero e violência contra as mulheres. As redações precisam desenvolver protocolos específicos para cobertura desses casos, garantindo que sejam tratados com a seriedade e precisão que merecem. Além disso, órgãos reguladores devem fiscalizar mais rigorosamente a qualidade da informação veiculada, especialmente em programas de grande audiência que atingem públicos diversos.
A sociedade civil também tem papel crucial nesse processo. Organizações feministas, acadêmicas e de defesa dos direitos humanos devem continuar monitorando a cobertura midiática, denunciando distorções e propondo alternativas mais adequadas. A pressão pública pode forçar mudanças nas práticas editoriais e contribuir para uma cultura jornalística mais responsável e comprometida com a verdade.
O caso de Marcele não é isolado. Representa milhares de histórias similares que são mal contadas, mal compreendidas e, consequentemente, mal enfrentadas pela sociedade brasileira. Enquanto programas de televisão continuarem tratando feminicídios como crimes comuns, estarão contribuindo ativamente para a perpetuação da violência de gênero. É hora de exigir uma mudança radical na forma como a mídia aborda essas questões, reconhecendo seu poder de influenciar percepções sociais e políticas públicas.
A luta contra o feminicídio exige não apenas ações governamentais, mas também transformação cultural profunda. A mídia, como formadora de opinião pública, tem responsabilidade direta nesse processo. Cada reportagem, cada enquadramento, cada palavra escolhida pode fazer diferença entre a conscientização e a banalização, entre a justiça e a impunidade. O Brasil precisa urgentemente de uma imprensa que esteja à altura dos desafios sociais do século XXI, comprometida com a verdade, a justiça e os direitos humanos fundamentais.

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