Dossiê Mulher amplia análise sobre violência de gênero e revela avanço do discurso redpill nas redes sociais

 


Pela primeira vez em mais de duas décadas de existência, o Dossiê Mulher, elaborado pelo Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (ISP-RJ), amplia seu escopo de análise para além das estatísticas policiais e passa a investigar também o ambiente digital. A 21ª edição do estudo, divulgada nesta quarta-feira, apresenta um novo olhar sobre a violência contra as mulheres ao examinar como discursos misóginos disseminados nas redes sociais podem contribuir para a naturalização da violência e influenciar comportamentos que futuramente se transformam em ocorrências registradas nas delegacias.

O levantamento representa uma mudança importante na metodologia do instituto. Em vez de concentrar a análise apenas nos crimes já consumados e registrados oficialmente, o estudo busca compreender fatores culturais, sociais e digitais que alimentam a violência de gênero antes mesmo que ela se manifeste fisicamente ou resulte em processos criminais.

Entre os principais focos da pesquisa está o chamado movimento "redpill", expressão utilizada para definir grupos que afirmam combater um suposto sistema favorável às mulheres. Segundo o ISP, parte desse universo virtual utiliza argumentos baseados em informações distorcidas, dados apresentados sem comprovação ou interpretações enviesadas para justificar discursos discriminatórios e incentivar comportamentos hostis contra mulheres.

Combater a violência desde sua origem

Para a presidente do Instituto de Segurança Pública, Bárbara Caballero, enfrentar apenas as consequências da violência doméstica já não é suficiente. Segundo ela, é necessário compreender e interromper os mecanismos que alimentam esse comportamento desde sua origem.

A dirigente destaca que a violência contra a mulher nasce em uma cultura marcada pelo machismo estrutural e pelo patriarcado, onde pequenas manifestações de desrespeito acabam sendo naturalizadas. Essas chamadas microagressões criam um ambiente propício para o desenvolvimento de formas mais graves de violência.

A inclusão do ambiente digital na pesquisa parte justamente dessa compreensão: discursos aparentemente inofensivos podem funcionar como mecanismos de legitimação da violência, influenciando milhares de pessoas e reforçando preconceitos históricos contra as mulheres.

Redes sociais se tornam objeto de investigação

Para compreender como esse tipo de narrativa circula na internet, pesquisadores do ISP analisaram cem publicações feitas entre o ano passado e este ano em cinco perfis da plataforma X, antigo Twitter, identificados como pertencentes ao universo redpill.

Embora a amostra seja considerada limitada, o instituto afirma que ela foi suficiente para identificar padrões recorrentes de linguagem, estratégias de convencimento e formas de disseminação das mensagens.

Juntos, os cinco perfis analisados ultrapassaram a marca de 23 milhões de visualizações e acumularam aproximadamente 210 mil curtidas, demonstrando que o alcance desse conteúdo vai muito além de pequenos grupos fechados.

Segundo Laura Mariana da Costa, analista da Coordenadoria de Gestão do Conhecimento do ISP, existe uma percepção equivocada de que esse tipo de conteúdo permanece restrito a nichos específicos da internet.

Na prática, afirma a pesquisadora, o potencial de circulação dessas mensagens é extremamente elevado e alcança públicos de diferentes idades, desde adolescentes até adultos.

O objetivo da análise não é apenas compreender a dinâmica das redes sociais, mas impedir que esse discurso se transforme futuramente em novos registros policiais e novas vítimas.

Responsabilização do agressor ganha destaque

Outro ponto importante apresentado pelo Dossiê Mulher é a mudança de perspectiva sobre o enfrentamento da violência doméstica.

O estudo propõe que as políticas públicas concentrem esforços não apenas no atendimento às vítimas, mas também na responsabilização efetiva dos autores da violência.

Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, o documento destaca que o ambiente virtual passou a representar uma nova frente para a disseminação da misoginia, exigindo estratégias de prevenção adaptadas à realidade digital.

A ideia é romper com modelos tradicionais que concentram toda a narrativa sobre a mulher vitimada, enquanto pouco discutem os mecanismos que produzem e incentivam o comportamento agressivo.

Mais de 159 mil mulheres sofreram violência

Os números apresentados pelo levantamento revelam a dimensão do problema no estado do Rio de Janeiro.

Durante o ano passado, 159.041 mulheres e meninas foram vítimas de algum tipo de violência. Isso representa aproximadamente três vítimas por minuto.

Ao todo, foram registrados 114.895 boletins de ocorrência relacionados à violência contra mulheres, mantendo uma tendência de crescimento observada desde 2020.

Na comparação com o levantamento anterior, tanto o número de vítimas quanto o total de registros aumentaram cerca de 3%.

O perfil predominante das vítimas aponta que:

  • 52,3% são mulheres negras;
  • 47,9% são solteiras;
  • 29,8% possuem entre 18 e 29 anos.

Esses dados reforçam a necessidade de políticas públicas direcionadas aos grupos mais vulneráveis.

Violência acontece principalmente dentro de casa

O levantamento mostra que quase metade dos episódios de violência ocorre dentro da residência da vítima.

Segundo o Dossiê Mulher, 49,7% das ocorrências aconteceram no ambiente doméstico.

Também foi identificado que, em 71,5% dos casos, os autores da violência são homens pertencentes ao círculo de convivência da vítima, como companheiros, ex-companheiros ou familiares.

Os finais de semana continuam concentrando o maior número de registros.

Entre os tipos de violência registrados, a violência psicológica lidera os casos, seguida pelas violências física, moral, sexual e patrimonial.

Ambiente virtual registra crescimento da violência

Embora a residência continue sendo o principal cenário das agressões, o estudo mostra um crescimento constante da violência praticada pela internet.

No ano passado, o ambiente virtual respondeu por 3,8% dos casos de vitimização feminina registrados pelo instituto.

Foram contabilizadas 29.147 ocorrências relacionadas à internet, sendo que 57,4% das vítimas eram mulheres.

Somente em 2025 foram identificadas 5.970 vítimas de violência psicológica e moral praticada em ambiente digital.

Desse total, 3.417 registros correspondem especificamente ao crime de violência psicológica, número que representa aumento de 20,6% em relação ao ano anterior.

O crescimento se torna ainda mais expressivo quando comparado ao início da série histórica.

Em 2015, haviam sido registradas apenas 239 vítimas desse tipo de crime. Em dez anos, o aumento supera 1.300%.

Descumprimento de medidas protetivas também migra para o meio digital

O estudo revela que até mesmo medidas protetivas determinadas pela Justiça vêm sendo descumpridas por meio da tecnologia.

Nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher foram registrados 2.521 casos de crimes praticados pela internet durante o ano passado.

As ocorrências mais frequentes envolveram:

  • ameaças;
  • injúrias;
  • descumprimento de medidas protetivas.

Segundo o levantamento, o estado registrou 5.870 casos de descumprimento de medidas protetivas, maior número desde o início da série histórica em 2018.

Cerca de um em cada dez episódios ocorreu virtualmente.

Os agressores utilizam diferentes ferramentas para manter contato com as vítimas, incluindo redes sociais, aplicativos de mensagens e até mesmo transferências bancárias via PIX, utilizadas como forma indireta de comunicação, perseguição ou monitoramento.

Feminicídios continuam preocupando autoridades

O Dossiê Mulher também apresenta um panorama atualizado sobre os casos de feminicídio registrados no estado.

No ano passado ocorreram 105 feminicídios.

Embora o número seja quatro casos inferior ao registrado no ano anterior, trata-se do terceiro maior índice desde o início da série histórica.

O pico ocorreu em 2022, quando foram contabilizados 111 assassinatos motivados por violência de gênero.

Outro dado preocupante mostra que 77,1% das vítimas de feminicídio em 2025 não possuíam medidas protetivas vigentes.

O estudo também identificou que 19% dos autores desses crimes já possuíam histórico de violência doméstica.

Em relação à responsabilização criminal, aproximadamente 65,2% dos autores foram presos.

Outro fator recorrente identificado nas investigações foi o consumo de álcool e drogas no momento dos assassinatos, elemento presente em parcela significativa dos casos analisados.

Segundo Vanessa Cardozo, coordenadora do Dossiê Mulher, mais da metade das vítimas de feminicídio já havia sofrido episódios anteriores de violência doméstica, mas nunca formalizou denúncia às autoridades.

Para a pesquisadora, isso demonstra que muitos desses crimes poderiam ser evitados caso houvesse intervenção ainda nas primeiras manifestações de violência.

Como funciona o discurso redpill

A análise qualitativa das publicações permitiu ao ISP identificar duas principais estratégias de convencimento utilizadas por perfis associados ao universo redpill.

A primeira consiste na chamada pseudoevidência.

Nesse modelo, os autores apresentam estatísticas, pesquisas ou estudos aparentemente científicos para sustentar seus argumentos. No entanto, muitas dessas informações são falsas, retiradas de contexto, manipuladas ou provenientes de fontes sem credibilidade.

A segunda estratégia recebe o nome de posição de revelação.

Nesse formato, os influenciadores se apresentam como portadores de uma verdade supostamente escondida da sociedade. O discurso é construído para convencer seguidores de que apenas aquele grupo conhece a realidade sobre os relacionamentos entre homens e mulheres.

Segundo o estudo, essas estratégias tornam a identificação do conteúdo mais difícil, principalmente porque evitam insultos diretos e utilizam linguagem aparentemente racional.

Estratégias para escapar da moderação

Outro aspecto observado pelos pesquisadores foi a constante adaptação da linguagem utilizada por esses grupos.

Quando determinados termos passam a ser reconhecidos por plataformas digitais ou pelo público em geral como associados ao discurso misógino, novos códigos e expressões são rapidamente adotados.

Essa estratégia, conhecida como masking pill, busca dificultar a identificação automática do conteúdo e reduzir as chances de remoção das publicações pelas plataformas.

Relacionamentos tratados como mercado

O estudo aponta que parte da narrativa redpill apresenta os relacionamentos afetivos como se fossem relações comerciais.

Nesse modelo, mulheres seriam avaliadas por um suposto "valor biológico", considerado decrescente ao longo da vida.

Entre os fatores utilizados para definir esse valor aparecem idade, maternidade, histórico de relacionamentos e experiências sexuais.

Também são frequentemente citados carreira profissional e independência financeira como características que reduziriam esse suposto valor feminino, por serem associadas a papéis tradicionalmente masculinos.

Já os homens são retratados como possuidores de um "valor de mercado" crescente, vinculado ao sucesso financeiro, ao status social e às conquistas materiais acumuladas ao longo do tempo.

O estudo também identificou uma espécie de escala de radicalização nas mensagens, que vai desde manifestações de frustração até conteúdos que podem incentivar comportamentos violentos.

Autoridades defendem responsabilização criminal

Durante a apresentação do Dossiê Mulher, representantes do governo estadual defenderam ações mais rigorosas para combater esse tipo de conteúdo.

O secretário estadual de Segurança Pública afirmou que a misoginia não pode ser tratada como simples brincadeira ou liberdade irrestrita de expressão quando há incentivo à violência contra mulheres.

Segundo ele, perfis identificados na pesquisa já são alvo de investigação da Polícia Civil.

Caso as investigações confirmem que os responsáveis utilizaram deliberadamente essas páginas para promover agressões ou estimular práticas criminosas contra mulheres, poderão responder judicialmente por seus atos.

O governo também destacou a importância de programas já existentes, como a Patrulha Maria da Penha, mas reforçou que medidas de proteção às vítimas precisam ser acompanhadas de ações preventivas voltadas ao enfrentamento das causas da violência.

Ao incorporar o ambiente digital à análise do Dossiê Mulher, o Instituto de Segurança Pública amplia o debate sobre violência de gênero e reforça que a prevenção passa, cada vez mais, pela compreensão das dinâmicas das redes sociais. O estudo sinaliza que discursos misóginos disseminados online possuem elevado potencial de alcance e podem influenciar comportamentos nocivos, tornando fundamental a combinação entre educação, responsabilização legal, políticas públicas e monitoramento das novas formas de violência para reduzir a vitimização das mulheres.

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