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| A ex-deputada e atual candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul Manuela D’Ávila | Crédito: Cristiane Leite |
Ex-deputada e candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul coloca regulação das big techs e combate à misoginia no centro de sua campanha eleitoral
Em um momento político marcado pela ascensão de discursos polarizados e pela intensificação dos ataques digitais, a ex-deputada federal e atual candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul, Manuela D'Ávila, retorna à linha de frente da política institucional com uma agenda clara e contundente. Após oficializar sua candidatura em 25 de julho de 2026, a política do Psol traz para o centro do debate temas que considera fundamentais para a democracia brasileira contemporânea: o combate à violência política de gênero e a urgente necessidade de regulação das plataformas digitais.
Esta será a nona disputa eleitoral de Manuela, trajetória que inclui marcas históricas como ter sido eleita a vereadora mais jovem de Porto Alegre e a deputada federal mais votada da história do Rio Grande do Sul. Aos 30 anos, na época de sua reeleição como deputada, ela conquistou 489 mil votos, representando 10% do total de votos no estado gaúcho. Um feito que a enche de orgulho e que demonstra sua capacidade de conexão com a sociedade.
A misoginia como instrumento de controle político
Ao analisar o cenário político brasileiro, Manuela D'Ávila faz uma afirmação categórica que resume sua leitura sobre os mecanismos de poder contemporâneos: "A violência contra mulheres é o eixo da extrema direita". Para a candidata, não se trata apenas de agressões isoladas ou de casos pontuais de assédio, mas de uma estratégia deliberada e sistemática de controle da participação política feminina.
Segundo sua análise, a agressividade direcionada a figuras femininas públicas funciona como um instrumento de intimidação que visa afastar todas as mulheres do debate nacional, e não apenas aquelas que são alvo imediato das ofensas. É uma tática de silenciamento que opera através do medo, da exposição pública humilhante e da constante vigilância digital.
Manuela fala com propriedade sobre o tema, pois vivenciou na própria pele as consequências desse fenômeno. Durante anos, enfrentou perseguições intensas nas redes sociais, marcadas por um evidente recorte de misoginia. Essa experiência foi tão avassaladora que a levou a se afastar temporariamente da política institucional, um período que ela classifica como motivado por circunstâncias externas e não por escolha pessoal.
"Que escolha pessoal é dada a uma mulher que tem a sua família ameaçada diante do silêncio do Estado? É triste, mas é verdade, essa é parte da minha história", relata a candidata, desconstruindo narrativas que tentaram apresentar seu afastamento como uma decisão voluntária desvinculada de pressões políticas e sociais.
Nomear para combater: a violência política de gênero
Durante o período em que esteve sem mandato eletivo, Manuela não se manteve distante das lutas sociais. Pelo contrário, assumiu a presidência do Instituto E Se Fosse Você?, onde implementou iniciativas concretas de apoio às mulheres que ocupam espaços públicos. Uma dessas iniciativas foi o Plantão Colmeia, um serviço especializado de acolhimento psicológico e jurídico destinado a mulheres que atuam na esfera pública, incluindo jornalistas, educadoras e outras profissionais expostas aos ataques digitais.
O objetivo central desse trabalho era nominar um comportamento que vinha sendo utilizado sistematicamente como forma de controle sobre todas as mulheres. Dar nome às agressões cotidianas foi, segundo Manuela, um passo fundamental para defender a atuação e a permanência das mulheres nos espaços de poder. Sem essa conceituação clara, as violências permaneciam invisibilizadas, naturalizadas como "parte do jogo político" ou minimizadas como "exageros" de quem sofria os ataques.
A ex-deputada avalia que houve uma evolução tanto institucional quanto do movimento feminista no combate aos ataques direcionados às mulheres dentro da política. O reconhecimento da violência política de gênero como categoria específica permitiu avanços importantes na compreensão do fenômeno e na elaboração de respostas adequadas. No entanto, ela alerta que ainda persiste uma incompreensão conceitual significativa sobre como a extrema direita se constrói precisamente a partir dessa violência misógina.
"Nós ainda não temos a totalidade dessa dimensão", opina Manuela, indicando que o debate público precisa aprofundar a compreensão sobre as conexões entre misoginia, autoritarismo e projetos políticos antidemocráticos.
A regulação das big techs como questão de soberania nacional
Caso eleita senadora, Manuela pretende levar ao Congresso Nacional um debate que considera urgente e estratégico: a regulação do ambiente digital. A candidata aponta que a discussão sobre o tema foi sistematicamente distorcida para atender aos interesses econômicos das grandes corporações de tecnologia, conhecidas como big techs.
"A agenda da regulação das redes foi deslocando os debates sobre liberdade para proteger algumas empresas. Setores expressivos do povo brasileiro entendem que devemos ter regramento para esse setor", explica Manuela, destacando que a narrativa dominante sobre censura serve, na prática, para blindar multinacionais de qualquer responsabilidade sobre os impactos sociais de suas plataformas.
Os problemas identificados pela candidata são múltiplos e interconectados. Ela aponta para o impacto devastador dos algoritmos na formação de opinião pública, o vício em telas que afeta especialmente adolescentes e jovens, e a disseminação acelerada de discursos de ódio e misoginia através das redes sociais.
"Nós temos hoje uma geração de adolescentes, sobretudo meninos, viciados em telas. Esse é um assunto que ainda não surge na política brasileira. Jovens que consomem conteúdos misóginos, que vão desenvolvendo uma relação de compulsividade e adição similar ao uso abusivo de substâncias", alerta Manuela.
A candidata chama atenção para um fenômeno particularmente preocupante: o crescimento exponencial do compartilhamento de imagens íntimas, sejam reais ou adulteradas por inteligência artificial. Essa prática, conhecida como pornografia de vingança ou deepfakes, tem destruído vidas e carreiras, especialmente de mulheres, sem que haja mecanismos eficazes de responsabilização das plataformas que permitem essa circulação.
"Quantos senadores e senadoras nós temos que entendem desse tema? Quantos senadores querem construir uma agenda de regulação que não seja uma agenda de restrição de liberdade dos cidadãos e das cidadãs?", questiona Manuela, apontando para a lacuna de conhecimento técnico e político sobre o assunto no Legislativo brasileiro.
Soberania digital e cumprimento da legislação brasileira
Para Manuela D'Ávila, enquadrar as multinacionais de tecnologia nas leis brasileiras não é uma questão de censura, contrariando o discurso frequentemente reproduzido por setores da política alinhados aos interesses dessas empresas. Trata-se, antes de tudo, de uma questão de soberania nacional e de aplicação igualitária da legislação.
"Nós queremos que essas empresas cumpram as regras que o nosso país estabelece como suas. Agora, esse debate é um debate muito além disso, é um debate relacionado à soberania nacional", enfatiza a candidata.
A posição de Manuela reflete uma compreensão mais ampla dos desafios impostos pela digitalização da sociedade. Não se trata apenas de moderar conteúdos ou punir infrações, mas de garantir que o espaço digital seja regulado democraticamente, com transparência algorítmica, proteção de dados pessoais e responsabilização das plataformas pelos danos causados por seus sistemas de recomendação.
A identidade política de Manuela foi profundamente transformada pela maternidade e pelo enfrentamento direto ao ódio nas redes. Essa experiência a levou a reafirmar que sua atuação não se restringe ao parlamento, mas se conecta diretamente com as lutas da sociedade civil. Para ela, a política institucional deve ser um instrumento de transformação social, não um fim em si mesmo.
Ao olhar para sua trajetória na vida pública, Manuela celebra os êxitos conquistados, mas mantém os pés no chão quanto aos desafios que ainda precisam ser superados. Sua candidatura ao Senado representa não apenas uma disputa por uma vaga no Legislativo, mas uma oportunidade de colocar na agenda nacional temas considerados urgentes por movimentos sociais, especialmente pelo movimento feminista e por organizações que defendem direitos digitais.
A eleição de 2026 se apresenta como um momento crucial para o Brasil. Com a polarização política em níveis elevados e a influência crescente das plataformas digitais na formação de opinião pública, temas como regulação das big techs e combate à violência política de gênero deixam de ser questões secundárias para se tornarem centrais na defesa da democracia.
Manuela D'Ávila entra nessa disputa com a convicção de que é possível construir uma política diferente, baseada no diálogo, no respeito à diversidade e na defesa intransigente dos direitos humanos. Sua mensagem é clara: a violência contra mulheres não pode mais ser tratada como efeito colateral da política, mas como elemento estrutural que precisa ser combatido frontalmente para que a democracia brasileira possa se consolidar plenamente.
O desafio é enorme, mas a candidata demonstra disposição para enfrentá-lo, trazendo para o Senado não apenas sua experiência parlamentar, mas também as lições aprendidas nos anos de afastamento e reconexão com as bases sociais. O Rio Grande do Sul e o Brasil observam atentamente se essa voz conseguirá ecoar nas urnas e transformar-se em ação legislativa concreta.

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