Mulheres são maioria entre eleitoras, mas permanecem ausentes dos cargos de maior poder no Brasil
As eleições presidenciais de 2026 revelam uma contradição profunda sobre o lugar das mulheres na política brasileira. Elas constituem a maioria do eleitorado nacional, decidem resultados eleitorais e são constantemente abordadas nos discursos de campanha. No entanto, não ocupam os espaços onde o poder realmente se concentra. Nas chapas competitivas à Presidência da República, nenhuma mulher aparece como candidata principal ou vice-presidente. Esta ausência sistemática expõe um mecanismo estrutural que aceita o voto feminino, mas veta a presença feminina no comando político.
A Ilusão da Participação
A participação das mulheres nas eleições brasileiras nunca foi tão visível quanto agora. Elas aparecem em milhares de candidaturas, especialmente nas disputas proporcionais para assembleias legislativas estaduais e Câmara dos Deputados. Os programas de governo mencionam violência contra a mulher, autonomia econômica, maternidade e segurança pública. As propagandas eleitorais dedicam segmentos específicos ao público feminino. Os palanques incorporam pautas tradicionalmente associadas às mulheres.
Entretanto, essa presença discursiva não se traduz em presença decisória. A mulher figura como eleitora estratégica, como tema de campanha, como público a ser conquistado. O que permanece raro é sua autorização como sujeito capaz de definir os rumos da própria disputa eleitoral. Todos os principais candidatos falam sobre questões femininas, mas nenhum deles compartilha efetivamente o poder com mulheres em suas chapas presidenciais.
Esta distinção entre estar na política e estar no poder torna-se particularmente nítida em 2026. Representatividade não significa apenas quantidade de mulheres candidatas. Significa analisar para quais cargos elas conseguem se candidatar, quais posições ocupam dentro das estruturas partidárias e quanto poder efetivamente concentram quando alcançam mandatos eletivos.
Os Números Revelam o Abismo
Os dados registrados no Tribunal Superior Eleitoral demonstram claramente esse descompasso. Mulheres representam 27% das candidaturas presidenciais registradas para 2026, uma queda de oito pontos percentuais em relação a 2022, quando atingiram 35%. Essa redução ocorre justamente após uma eleição que havia produzido abertura maior para candidaturas femininas.
Em 2022, quatro mulheres estiveram em chapas competitivas: Simone Tebet, Vera Lúcia, Soraya Thronicke e Sofia Pádua. A comparação com 2018 ajuda a contextualizar essa trajetória. Naquele ano, as mulheres representavam 25% das candidaturas presidenciais. Portanto, 2026 não representa continuação de uma tendência descendente, mas retorno a um padrão histórico de baixa presença feminina após um momento excepcional de maior inclusão.
A disparidade torna-se ainda mais evidente quando analisamos as eleições majoritárias. Nas disputas para Presidência, governos estaduais e Senado Federal, a presença feminina despenca drasticamente. Quanto mais concentrado está o poder em uma única cadeira, menor parece ser o espaço reservado às mulheres. Este fenômeno desmonta explicações simplistas sobre suposto desinteresse feminino pela política. As mulheres estão presentes massivamente nas urnas e nas listas partidárias. O que não está igualmente distribuído é o acesso aos diferentes níveis de poder.
A Vice-Presidência Como Porta Fechada
Durante décadas, a vice-presidência funcionou como porta lateral de entrada das mulheres na política majoritária. Quando a disputa pela cabeça da chapa permanecia dominada por homens, mulheres apareciam como possibilidade de composição, representação simbólica ou aceno eleitoral. Embora a vice-presidência não equivalha ao poder presidencial, compor uma chapa competitiva significava reconhecimento de capital político, visibilidade nacional e acesso a posição central na disputa.
Em 2026, nem essa possibilidade subsiste. Lula manteve Geraldo Alckmin como vice-presidente. Flávio Bolsonaro, após afirmar publicamente que procurava uma mulher para ocupar a posição e sondar nomes como Bia Kicis, Julia Zanatta e Priscila Costa, todas do Partido Liberal, terminou escolhendo Alfredo Gaspar, também do PL.
O caso de Priscila Costa revela mecanismos sutis de exclusão. Depois de ser sondada por diferentes integrantes do partido e sinalizar disponibilidade, ela soube pela imprensa que o escolhido seria um homem. A justificativa apresentada publicamente afirmou que a deputada teria preferido priorizar a família por ser mãe de quatro filhos.
Essa narrativa levanta questão fundamental: por que a maternidade aparece como obstáculo quando se trata de mulher ocupar posição de poder, mas sequer constitui variável quando o escolhido é homem? Ninguém questiona quantos filhos tem Alfredo Gaspar, como ele concilia vida familiar e política, ou se pretende priorizar a família. A maternidade, nesse contexto, deixa de ser característica privada e transforma-se em argumento político utilizado para delimitar até onde uma mulher pode chegar.
Violência Política Como Mecanismo de Exclusão
O filtro que impede mulheres de alcançar cargos de poder não opera apenas nos diretórios partidários ou nas negociações para formação de chapas. Ele funciona também através da violência política de gênero. Mulheres que entram na política enfrentam punição que transcende a disputa eleitoral convencional: ataques pessoais, ameaças, deslegitimação sistemática e constrangimentos públicos que têm como alvo específico sua condição de mulheres.
Dados do Monitor de Violência Política de Gênero e Raça, produzido pelo Instituto Alziras em parceria com o Observatório Nacional da Mulher na Política, revelam dimensão alarmante desse problema. Um em cada três inquéritos policiais abertos por violência política de gênero é arquivado antes de qualquer avanço investigativo. Apenas 11% das representações formais chegam a virar ação penal. Nenhuma condenação transitou em julgado de forma definitiva até o momento.
Mais revelador ainda: 60% dos agressores identificados nesses processos ocupam algum cargo público. Não estamos falando majoritariamente de agressores anônimos escondidos atrás de perfis falsos na internet. Seis em cada dez agressores já estão dentro do sistema político, recebem salário do Estado, possuem mandato eletivo e utilizam palanques institucionais enquanto atacam mulheres que tentam entrar nesse mesmo sistema.
A violência política de gênero não constitui ataque externo à política institucional. Ela é produzida internamente, por quem já ocupa cadeiras de poder e utiliza essa posição para impedir outras pessoas de ocupar as próximas. Além disso, essa violência não atinge todas as mulheres da mesma forma. Mulheres negras, indígenas e LGBTQIAPN+ recebem os ataques mais graves e recorrentes. Contudo, os casos que efetivamente avançam na Justiça têm, em sua maioria, vítimas brancas. A barreira institucional soma-se à violência em vez de compensá-la.
O Contexto da Violência Letal
No pano de fundo dessa engrenagem eleitoral está um número que atravessa toda a campanha: 1.571 feminicídios registrados no Brasil em 2025, recorde histórico desde a tipificação do crime em 2015. Isso representa média de quatro mulheres mortas diariamente, num país onde a violência letal em geral vem caindo continuamente há cinco anos consecutivos.
A curva de quase todos os indicadores de segurança pública desce. A curva da violência de gênero sobe sozinha, na contramão de todas as outras estatísticas que os candidatos costumam utilizar para vender suas propostas. Este contexto torna ainda mais urgente a discussão sobre representação feminina nos espaços de decisão.
Caminhos Para Reversão do Quadro
Organizações como o Instituto Marielle Franco apresentam caminhos concretos para reverter esse cenário. A Agenda Marielle Franco 2026 defende criação de Política Nacional de Enfrentamento à Violência Política de Gênero e Raça, com responsabilização de plataformas digitais pela circulação de conteúdo violento e mecanismos efetivos de proteção às candidatas. Essas propostas vão além de garantias formais existentes no papel que não se traduzem em prática concreta.
Falta vontade política de quem, mais uma vez, decide sozinho quem senta à mesa onde essas decisões são tomadas. A ausência de mulheres nas chapas presidenciais de 2026 não é lacuna acidental, esquecimento coletivo ou coincidência estatística. É resultado produzido por sistema que pune com descrédito público e violência real a entrada de mulheres na disputa pelo poder concentrado, enquanto recompensa discursivamente quem se mantém dentro da ordem de gênero que sustenta esse mesmo sistema.
Uma democracia pode ampliar presença feminina nas urnas, nas listas partidárias e até nos parlamentos sem necessariamente alterar distribuição de poder entre homens e mulheres. A diferença entre eleições proporcionais e majoritárias revela exatamente esse mecanismo. Nas primeiras, o poder fragmenta-se entre muitas cadeiras. Nas segundas, concentra-se em vaga única. E é justamente quando a disputa deixa de ser por parcela do poder e passa a ser pelo comando total que a presença feminina torna-se mais rara.
A pergunta essencial não é simplesmente onde estão as mulheres. É outra: quem decide quais mulheres podem estar na política e até onde elas podem chegar? Responder a essa questão exige reconhecer que representatividade verdadeira significa muito mais que números absolutos. Significa transformar estruturas, redistribuir poder efetivo e criar condições reais para que mulheres não apenas participem do processo eleitoral, mas liderem transformações políticas profundas.
Enquanto isso não ocorrer, continuaremos assistindo ao paradoxo das eleições brasileiras: mulheres decidem eleições, mas não dirigem campanhas. Mulheres são tema central de debates, mas não ocupam lugares centrais de decisão. Mulheres votam em massa, mas permanecem excluídas dos espaços onde o voto se converte em poder real.

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